O luxo de estar presente

Quando não havia telas individuais, havia também mais conversa, piada, bagunça e discussão

Quando eu estava na faculdade, já existia a Intermed, uma competição entre as faculdades de Medicina que, a cada ano, acontecia em uma cidade paulista diferente. Íamos de ônibus, em grupos grandes, atravessando horas de estrada. Não havia streaming nem uma tela para cada pessoa, mas havia conversa, piada, bagunça e discussão. Ninguém precisava fazer um combinado de ficar offline, porque o importante estava ali: a presença.

Pensei sobre essas viagens quando li sobre o crescimento de experiências em cafés, jantares e clubes de leitura que têm atraído milhares de pessoas mundo afora e cuja proposta é deixar o celular de lado para que as pessoas possam estar juntas de verdade. Há inclusive uma iniciativa que teve início em Amsterdã, chamada de The Offline Club, que transformou isso em negócio. Os interessados pagam para passar algumas horas lendo ou conversando sem o risco de se distraírem por causa das notificações.

Desligar o celular, porém, é a parte mais fácil. Estar offline não é o mesmo que estar presente. Dá para largar o aparelho e continuar com a cabeça em outro lugar. O que esses encontros me parecem estar vendendo é atenção, mais do que a ausência do telefone.

No Brasil, movimentos como esses têm virado tendência. Hoje, por exemplo, acontece o Dia do Reset, um convite para passar um tempo longe de dispositivos eletrônicos. Não é por acaso. O brasileiro passa, em média, 53h30 por semana consumindo mídia online, segundo a pesquisa Digital 2026.

É fácil, e até óbvio, ler esses movimentos como uma reação ao excesso de tecnologia, mas a ciência mostra que o ganho vai além de diminuir o tempo de tela, o que por si só já é importante. O que se recupera são coisas que já sabemos serem protetoras da saúde mental, como a atenção, a conversa, a interação com desconhecidos e o tempo compartilhado.

Em uma pesquisa publicada em 2025 na PNAS Nexus, revista da Academia Nacional de Ciências dos EUA, os pesquisadores bloquearam o acesso à internet no smartphone de centenas de participantes por duas semanas. Eles seguiam podendo ligar, mandar mensagens e usar a internet em outros aparelhos, como o tablet. Mesmo assim, houve melhora na sensação de bem-estar, na saúde mental e na capacidade de manter a atenção. Parte dessa mudança parece ter acontecido porque, sem a internet o tempo todo no bolso, as pessoas passaram a conviver mais, se exercitar e sair ao ar livre.

Outras pesquisas apontam na mesma direção, como é o caso desta de 2018, que saiu no Journal of Experimental Social Psychology. Em experimentos durante as refeições com amigos e familiares, quem usou o celular ficou mais distraído e aproveitou menos aquele tempo junto. Veja, o celular não desapareceu da vida de ninguém. O que se percebeu é que quem esteve verdadeiramente presente para o outro aproveitou mais.

Estar fisicamente ao lado de alguém não garante estar de fato ali. Presença também depende de atenção, e atenção é o que uma tela na mão rouba primeiro.

Durante séculos, sentar-se com alguém sem pressa foi a coisa mais normal do mundo. Temos passado tantas horas mergulhados nas telas que muitos se dispõem até a pagar por um espaço que antes surgia naturalmente.

É lógico que eu não vou defender que voltemos ao mundo dos meus tempos de estudante, quando ninguém carregava um telefone no bolso. Eu mesmo não gostaria. O celular aproxima quem está longe, resolve muita coisa, oferece trabalho, informação e diversão. O digital e o presencial não são inimigos, e nenhum deles substitui completamente o outro.

No fundo, é disso que essas experiências nos falam: de muita gente tentando reencontrar o outro olho no olho e reaprendendo a estar presente.

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