Abril é o mês dedicado à saúde no trabalho. Se no passado essa era uma data voltada principalmente à segurança e prevenção de acidentes, nos últimos anos a saúde mental passou a ocupar um espaço central nessas conversas. Há uma razão para isso: a cada ano, cresce o número de afastamentos médicos por problemas de saúde mental. Para se ter uma ideia, em 2025 foram mais de meio milhão de pedidos ao INSS.
Os números não apontam para um fenômeno exclusivamente brasileiro. Estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que depressão e ansiedade levam à perda de cerca de 12 bilhões de dias de trabalho por ano no mundo, com impacto econômico que ultrapassa US$ 1 trilhão em produtividade.
Esse aumento ajuda a explicar por que mudanças regulatórias começaram a surgir. A atualização da NR-01, norma que estabelece as diretrizes de segurança e saúde no trabalho, por exemplo, passou a incluir de forma mais explícita os chamados riscos psicossociais. Ou seja, riscos ligados ao estresse, à pressão e ao esgotamento.
A entrada em vigor dessas mudanças, que obrigam as empresas a monitorar riscos à saúde mental, foi adiada para 26 de maio, daqui a pouco mais de um mês. Esse adiamento revela algo importante: reconhecer a relevância da saúde mental no ambiente de trabalho é fundamental, mas transformar essa consciência em prática exige preparo, e, mais do que isso, liderança.
É aqui que está um ponto central. Em muitas organizações, ainda existe a tendência de tratar a saúde mental como um tema secundário, algo para o qual se cria um plano não por convicção, mas apenas para cumprir a norma.
Saúde mental não é uma questão burocrática. É parte central da sustentabilidade das organizações. Empresas são feitas de pessoas, esse é o maior capital delas. E a saúde mental impacta a produtividade, o engajamento, a inovação e a tomada e a qualidade das decisões.
A cultura de uma empresa começa no topo. Se as altas lideranças vivem em estado permanente de pressão, desgaste e exaustão, dificilmente conseguirão estar sensíveis às questões de seus liderados. Se a liderança não se cuida, torna-se difícil cuidar da equipe. Costumo dizer que quando o maestro desafina, a orquestra toda desafina.
Mais do que uma mudança regulatória, a atualização da NR-01 é um convite a uma mudança cultural, que começa com as lideranças. Cuidar da saúde mental não é sinal de fragilidade. É parte da boa gestão.
Talvez o verdadeiro desafio não seja criar processos para cumprir exigências legais. O desafio é repensar a forma como encaramos o trabalho e o próprio papel de liderança. Porque, no fim das contas, quando o maestro encontra o tom, toda a orquestra toca melhor.
*Dr. Arthur Guerra é professor da Faculdade de Medicina da USP, da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental.
Fonte: Link de acesso ao artigo
